Trans-parência alimentar
Maio 13, 2008 de Sávio Ponte
Depois de serem taxadas as gorduras saturadas como vilãs dos problemas cardíacos há décadas atrás, surgiu o processo de hidrogenização como salvador da pátria, que nos trouxe a saudável margarina que era muito mais leve e saudável que a manteiga, pois suas gorduras eram vegetais. Muitos anos depois, estudos entre 1995 e 2003 colocaram a hoje conhecida gordura trans - justamente o principal componente da margarina - como perigosa demais para o coração, entupidora maligna das artérias. As gorduras trans, principalmente proveninentes da gordura vegetal hidrogenada, foram demonizadas. Hoje, todo produto com gorduras vegetais precisa ter “Zero Trans” sob pena de ser sumariamente descartado por consumidores mais antenados (e infelizmente poucos).
Ainda assim, é preciso dizer que a legislação da Anvisa permite que produtos com até 0,2g de gorduras trans por porção contenham os dizeres Não contém, Livre de, Zero, Isento de, etc.. Ou seja, se o fabricante quiser colocar que a porção (na tabela da embalagem) é de 1/4 de um biscoito, para que o valor seja abaixo de 0,2g, além de tudo poderá colocar que o produto é “Zero Trans”. Isto seria sinal que cada biscoito, na verdade, contém 0,8g. Como a OMS diz que acima de 2g diárias a gordura Trans é perigosa, então 3 biscoitos destes já ultrapassam esta medida, embora sejam “livres de” gorduras trans.
A mágica do fim das gorduras trans também está por baixo, entretanto, de um outro processo industrial, a interesterificação. Note em qualquer embalagem de biscoito recheado ou qualquer outro que antes continha gordura vegetal hidrogenada, que agora contém gordura vegetal interesterificada. Eu li que a interesterificação é um processo químico que apesar de não gerar os mesmos problemas das gorduras trans, acaba gerando outros tão graves quanto, como se vê neste estudo (em PDF) ou neste site.
O bom senso precisa continuar existindo: alimentação tem que ser a mais natural possível, principalmente para as crianças. Tudo o que é industrializado é passível de conter substâncias inseguras para nossos organismos e continuamos sendo cobaias de uma indústria alimentícia cada vez mais focada em melhorar os lucros, mesmo que seja usando substâncias que nossas frágeis legislações permitem, ainda que perigosas para a saúde.
Consuma com muito cuidado biscoitos (principalmente recheados), chocolates, salgadinhos, bolos, sorvetes, margarinas, batatas fritas e afins.


