Já faz um bom tempo que tenho grande desprezo pelo o que a Revista Veja publica. Tornou-se, com o tempo, uma revista tendenciosa e manipuladora de informações, sendo bem aceita por parte da classe média-alta das grandes cidades, com um viés político de extrema direita. Tem perdido sistematicamente o número de assinantes por ter se tornado tão claramente um veículo que não divulga notícias, mas opiniões.
Estou neste post seguindo outros blogs para dar voz a uma destas respostas, por se tratar de um tema de Educação que muito me interessa, sobre o educador Paulo Freire. Os blogs aos quais me refiro são o Conversa Afiada e o Uma Visão do Mundo. Esta carta que se segue sequer foi enviada à revista, por ter sido considerado que a chance de publicação seria praticamente nula.
Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem “O que estão ensinando a ele?”, de autoria de Mônica Weinberg e Camila Pereira, ela foi baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil. Lá pelas tantas há o seguinte trecho:
“Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado“.
Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha, em 1990, cujo título é Ceausescu no Ibirapuera. Sem citar o Paulo Freire, ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina.
Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de repúdio:
“Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE — e um dos maiores de toda a história da humanidade –, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo desta.
Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.
A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.
Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do “filósofo” e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.
Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de distribuição da renda se baseou – que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.
Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu “Norte” e “Bíblia”, esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.
Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!
São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire”.





Não é a toa que num país de tantos analfabetos, Educação não dê votos. Vide ainda o exemplo de Cristovam Buarque e de tantos outros que fizeram desta a sua principal bandeira, como Paulo Freire. Com a mídia manipulando assim a opinião pública, professores que vêm na oportunidade de ensinar apenas a estabilidade e o emprego, ao invés do trabalho e da missão de formar cidadãos, das escolas que visam o lucro e não o indíviduo em toda a sua complexa formação… enfim, temos nisto tudo o resultado que gera sua inspiração para os demais posts, sobre energia nuclear, má educação, falta de respeito com o planeta terra e por aí vai. Simples assim. Somos um bando, não um povo.
Ué, pelo que sei as revistas semanais estilo veja são exatamente pra isso, são opinativas, e não informativas. A classe média-alta sabe disso, e quer justamente ler a opinião da revista. Revistas como Time e Newsweek são os modelos, e são exatamente da mesma maneira.
E sim, ela é extrema direita, como tudo deve ser. Comunismo não funciona, isso é provado, esquerdismo é ideologia de preguiçosos.
Problema da Veja é que ela é a maior (e não perde assinantes não pelo que sei) então todo mundo fica pegando no pé. Se quiser apenas a informação (aliás, menos distorcida, pois todo mundo distorce) vá ler jornal.
Olá, Walter
discordo quando diz que “tudo deve ser” de extrema direita. É este tipo de pensamento que faz com que o crescimento econômico esteja acima de tudo, inclusive dos recursos que o planeta possui, e hoje estamos numa grande crise global econômica e ambiental. É o tipo de “falta de preguiça” que não faz bem ao mundo, favorece a fortuna de poucos e a miséria de bilhões de pessoas.
Prefiro continuar com o meu pensamento de esquerda (e não comunista, nunca falei sobre comunismo aqui).
Jornais são tão ou mais manipulados que revistas, também não acredito neles.
Boa noite, Sávio Ponte
gostei muito da sua resposta ao Sr. Walter.
Há pouco tempo comentei com um colega de trabalho que não importa mais Comunismo, Capitalismo etc.. Haja vista o que está ocorrendo com o Sistema Financeiro Internacional.
O que vale é o bom caráter dos indivíduos e sua boa formação. Com isso formaremos sociedades equilibradas e de valor.
Atacar Paulo Freire é atacar o que temos de melhor e mais precioso em nosso país.
Peço licença para colocar aqui a mensagem que coloquei ontem em outro blog:
“Sra. Ana Maria Araújo Freire
Fiquei sabendo agora, por acaso, no site do Sindicato dos Bancários do Rio Grande do Norte a respeito da infeliz matéria da Veja sobre o nosso educador consagrado mundialmente, nosso querido Paulo Freire.
Um homem, humilde, humano, amável, e que só usou sua inteligência para o BEM, como Paulo Freire o fez, jamais será esquecido ou denegrido por ninguém, por nada.
Sem saber sobre o acontecido, no dia 08/10/2008 enviei para os meus contatos da minha caixa postal pessoal o seguinte:
“Leiam a entrevista feita com o mestre e adorável PAULO FREIRE.
Matéria retirada do site do Programa SALTO PARA O FUTURO, um programa de Educação a Distância realizado pela TV Escola (canal educativo da Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação) e produzido pela TV Brasil) – (programa de 20/04 a 30/04 de 1997).
Bjs.
Regina”
Sra. Ana Freire, a memória e obra de Paulo Freire é um dos maiores bens, ou mesmo o maior bem, que temos em nosso país – EDUCAÇÃO é TUDO, principalmente para todos. Se ainda não acabamos com o analfabetismo, se ainda não sabemos agir como verdadeiros cidadãos, é porque ainda precisamos ler e praticar muito os ensinamentos do mestre Paulo Freire.
Carinhosamente,
Regina
Rio de Janeiro-RJ
VIVA O GRANDE MESTRE PAULO FREIRE
Esse Walter parece desconhecer a diferença entre uma revista e um panfleto. Uma revista não deve veicular opiniões, como ele pensa. Isso cabe a panfletos, coisa que a Veja já se tornou há muito tempo.
Olá,
gostei muito da postagem, até coloquei no meu blog!
Achei um absurdo uma coisa assim ser publicada, a veja desmerecendo Paulo Freire na educação.
O que mais me intrigou foi que no mundo inteiro Paulo Freire é referência em educação e a veja o comparou com um grande físico(Einstein)!
Só não concordei com uma coisa aqui, a frase da figura: “Não assine e não leia Veja”, acho que nós devemos sim ler!
Não devemos nos alienar, temos de ler tudo referente a nossa área, seja de revistas de esquerda ou de direita!
Abraços,
Marina Vianna
Brasília-DF